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Sentido e propósitos abertos Neil Levy

by em Junho 26, 2013

SENTIDO E PROPÓSITOS ABERTOS
Neil Levy

Algumas pessoas poderiam sentir-se tentadas a argumentar que […] o sentido da vida se encontra na actividade e não na obtenção. Temos de cultivar propósitos de valor, para que as nossas vidas tenham sentido, mas não têm de ser propósitos que continuem a dar valor às nossas vidas se os alcançarmos. Há algo de correcto nesta resposta – ou melhor, muito, como veremos – mas há também algo de estranho. […]

Pense-se nos propósitos mais nobres e plenos de sentido que podemos cultivar, como a luta contra a pobreza e a opressão. Deveremos dizer que somos afortunados porque não alcançaremos estes propósitos? A ideia de que as nossas vidas têm sentido apenas porque os nossos mais importantes propósitos são inalcançáveis, e enquanto o forem, parece roubar-lhes o sentido.

[…] Para que encontremos a fonte do sentido […], este tem de ter três características: 1) não pode ser circular, na acepção em que tem de ter um propósito para lá de si mesmo. Mas 2), apesar de termos de conseguir um progresso significativo em direcção à sua finalidade, tem de ser tal que ou a) alcançar a sua finalidade não lhe rouba o sentido, ou b) apesar de o progresso constante nessa tentativa ser concebível, a sua conclusão final não o é. Poderá haver actividades com estas características? Sugiro que sim. […]

Sugiro que há actividades de valor que são inerentemente abertas – não por terem uma finalidade que não pode ser alcançada, mas porque a finalidade que procuram não está determinada antes da própria actividade. Ao invés, a finalidade define-se gradualmente e é especificada em termos mais precisos à medida que é cultivada, de modo que a finalidade da actividade é sempre, em si, uma das coisas que está em causa.

[…] Considere-se, por exemplo, a actividade filosófica ou, em geral, a procura da verdade em qualquer área de estudo. Esta é, nem é preciso dizê-lo, uma actividade paradigmaticamente valiosa, na medida em que a verdade, como a justiça e o bem, é um dos mais elevados valores que podemos conceber. Além disso, é constitutivamente uma investigação aberta […].

A ideia de um sistema acabado e inteiramente verdadeiro de conhecimento é literalmente inconcebível à partida […].

Analogamente, muitos outros bens supremamente valiosos são inerentemente abertos. A prática da criatividade artística, quando é cultivada no seu mais elevado nível, é paradigmática de tal actividade aberta.

[…] As finalidades das actividades superlativamente com sentido não podem ser alcançadas porque as actividades evoluem, de modo que as finalidades que visam alteram-se e são aprimoradas. O conhecimento não é de modo algum um caso especial, pela simples razão que a prossecução de qualquer uma das nossas finalidades que têm mais sentido é, entre outras coisas, uma actividade cognitiva: uma actividade que exige a descoberta ou invenção de novos instrumentos conceptuais e teorias novas e melhores. Porque as actividades superlativamente com sentido são abertas nesta acepção, […] podemos progredir em direcção a estas finalidades, com a certeza de que este progresso não ameaça o sentido dos nossos projectos.

Os projectos são caracteristicamente difíceis: exigem um esforço concertado, tanto intelectual como físico.Muitas vezes exigem também coragem. A entrega a um projecto é um trabalho, num sentido claro da palavra. […] O sentido que as pessoas mais dadas à reflexão podem olhar de frente sem evasivas só pode encontrar-se no trabalho. Não necessariamente, é claro, em trabalho pago. Quem, como os filósofos e (alguns) artistas profissionais, é pago para se entregar à prossecução do sentido superlativo é especialmente privilegiado.Mas a prossecução do sentido superlativo é necessariamente trabalho porque exige um empenho contínuo, concentração, atenção, esforço e, talvez a maior parte das vezes, fracasso, pelo menos temporário. Só a entrega activa a projectos confere sentido superlativo às nossas vidas.

Neil Levy, Despromoção e Sentido na Vida, 2005, trad. de Desidério Murcho, pp. 182-187.

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