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O princípio da responsabilidade – Hans Jonas

by em Junho 26, 2013

(…) A promessa da tecnologia moderna converteu-se em ameaça. (…) Concebida para a felicidade humana, a submissão da natureza, que agora se estende à própria natureza do homem, conduziu ao maior desafio alguma vez colocado ao ser humano, [desafio este que se deve à] sua própria acção.

(…) O que pode servir como bússola [para uma solução]? A previsão do perigo: apenas com a antevisão da desfiguração do homem chegamos ao conceito de homem a ser preservado. Só sabemos o que está em jogo quando sabemos que está em jogo. Como não se trata apenas do destino do homem, mas também da imagem do homem, não apenas de sobrevivência física, mas também da integridade da sua essência, a ética, que deve preservar ambas, precisa ir além da perspicácia e tornar-se uma ética de respeito.

(…) Sob o signo da tecnologia, a ética está relacionada com acções (e já não com sujeitos isolados) que têm uma projecção causal sem precedentes na direcção do futuro, juntando-se a isto a bruta magnitude dos seus impactos a longo prazo, bem como, a sua irreversibilidade. Tudo isto desloca a responsabilidade para o centro da ética. (…) À falta de modéstia [do poder tecnológico contemporâneo], equivocado tanto em termos ecológicos como antropológicos, o princípio da responsabilidade contrapõe a tarefa mais modesta que obriga ao temor e ao respeito: conservar incólume para o homem, na persistente incerteza da sua liberdade que nenhuma mudança das circunstâncias poderá suprimir, o seu mundo e a sua essência contra os abusos do seu poder. (…)

O jogador que arrisca no casino tudo aquilo que possui age de forma imprudente; quando se trata, não daquilo que possui, mas do que pertence a outro, age de forma criminosa; quando se trata de um pai de família, a sua acção é irresponsável, mesmo que se trate dos seus bens próprios e independentemente do facto de ganhar ou perder. Este exemplo demonstra que só pode agir irresponsavelmente quem assume responsabilidades, (…) persistindo uma relação de não-reciprocidade que define a responsabilidade. Por circunstâncias ou por convenção, encontram-se sob os meus cuidados, o bem-estar, o interesse e o destino dos outros, isto é, o controlo que tenho sobre os outros inclui, igualmente, a minha obrigação para com eles. O exercício do poder sem a observação do dever é, então, “irresponsável”, ou seja, representa uma quebra na relação de confiança presente na responsabilidade.

HANS JONAS, O Principio da Responsabilidade – ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, Contraponto, Rio de Janeiro, 2006, pág. 21-24 e 168

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