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A fonte da certeza – Discurso do método – Descartes

by em Junho 26, 2013

A Fonte da Certeza
Eu compreendia bem que é necessário que os três ângulos de um triângulo sejam iguais a dois ângulos rectos. Apesar disso, nada via que me garantisse que no mundo existe qualquer triângulo. Ao passo que, voltando a examinar a ideia de um ser perfeito, notava a existência está contida nessa ideia, de um modo talvez ainda mais evidente do que na ideia de um triângulo está compreendido os seus três ângulos serem iguais a dois ângulos rectos, ou na esfera os seus pontos serem equidistantes do centro. Assim, é pelo menos tão certo como qualquer demonstração da geometria que Deus, que é esse ser perfeito, existe.
(…)
Na verdade, aquilo que há pouco adoptei como regra, isto é, que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são inteiramente verdadeiras, não é certo senão porque Deus existe – ser perfeito de quem nos vem tudo o que existe em nós. Segue-se que as nossas ideias ou noções – coisas reais que provêm de Deus – não podem deixar de ser verdadeiras, na medida em que são claras e distintas. (…) Mas se não soubéssemos que tudo o que de real e verdadeiro existe em nós provêm de um ser perfeito e infinito, por claras e distintas que possam ser as nossas ideias, nenhuma razão teríamos que nos certificasse que elas possuem a perfeição de serem verdadeiras.
Ora, depois de o conhecimento de Deus e da alma ter garantido a certeza dessa regra, é fácil compreender que os sonhos que imaginamos não devem de modo algum fazer-nos duvidar da verdade dos pensamentos que temos quando acordados. Porque, se acontecesse que mesmo a dormir tivéssemos alguma ideia muito distinta – que um geómetra, por exemplo, inventasse qualquer nova demonstração -, o facto de ter sido durante o sonho não impediria que fosse verdadeira.
E quanto ao erro mais frequente dos nossos sonhos, que consiste em nos representarem muitos objectos como são representados pelos sentidos exteriores, não importa que esse erro nos leve a desconfiar da verdade de tais ideias, pois estas podem também enganar-nos muitas vezes sem que estejamos a dormir: é o que sucede quando, tendo icterícia, se vê tudo amarelo, ou com a grandeza dos astros e de outros corpos que, quando estão muito distantes, aparecem mais pequenos do que são. Em suma, quer estejamos acordados, quer durmamos, nunca nos devemos deixar persuadir a não ser pela evidência.
Nota-se que falo da razão e não da imaginação ou dos sentidos. Porque, embora vejamos o Sol muito claramente, não devemos julgar por isso que ele tem a grandeza que lhe vemos; e até podemos à vontade imaginar distintamente uma cabeça de leão num corpo de cabra, sem que tenhamos de concluir, por isso, que existem no mundo tais quimeras: porque a razão não garante que seja verdadeiro o que vemos ou imaginamos assim. Mas garante-nos que todas as nossas ideias ou noções devem ter algum fundamento verdadeiro, pois não seria possível que Deus, que é inteiramente perfeito e verdadeiro, as tivesse posto em nós sem isso.

René Descartes, Discurso do Método, 1637, Trad. de Newton de Macedo, pp. 27-33.

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