Skip to content

Teoria e Observação Karl Popper

by em Junho 15, 2012

Teoria e Observação

Karl Popper

A crença de que a Ciência procede da observação para a teoria é ainda tão firme e generalizada que a minha recusa em subscrevê-la é frequentemente acolhida com incredulidade. […]

Há vinte e cinco anos, tentei trazer esta questão a um grupo de estudantes de Física, em Viena, iniciando uma conferência com as seguintes instruções: «Peguem no lápis e no papel; observem cuidadosamente e anotem o que observarem!» Eles perguntaram, como é óbvio, o que é que eu queria que eles observassem. Manifestamente, a instrução «Observem!» é absurda. […] A observação é sempre selectiva. Requer um objecto determinado, uma tarefa definida, um interesse, um ponto de vista, um problema. E a sua descrição pressupõe uma linguagem descritiva, com palavras qualificativas; pressupõe similaridade e classificação, que pressupõem, por seu turno, interesses, pontos de vista e problemas. «Um animal com fome», escreve Katz, «divide o seu meio circundante em coisas comestíveis e incomestíveis. Um animal em fuga vê caminhos por onde se escapar e sítios para se esconder. Falando em termos gerais, os objectos mudam de acordo com as necessidades do animal.» Podemos acrescentar que os objectos podem ser classificados, e podem tornar-se semelhantes ou dissemelhantes, unicamente desta maneira – relacionando-se com necessidades e interesses. Esta regra aplica-se não só aos animais, mas também aos cientistas. No caso do animal, o ponto de vista decorre das suas necessidades, da tarefa do momento e das suas expectativas; no caso do cientista, decorrerá dos seus interesses teóricos, do problema concreto a investigar, das suas conjecturas e antecipações e das teorias por ele aceites como uma espécie de pano de fundo: ou seja, do seu quadro de referências, do seu «horizonte de expectativas». […]

É, sem dúvida, verdade que qualquer hipótese em particular por que optemos terá sido precedida por observações – por exemplo, as observações que essa mesma hipótese tem por objectivo explicar. Mas essas observações, por seu turno, pressupõem a adopção de um sistema de referências – um sistema de expectativas – um sistema de teorias. Se se revelaram significativas, se criaram a necessidade de uma explicação e, nessa medida, deram origem à invenção de uma hipótese, foi porque não podiam ser explicadas no interior do antigo sistema teórico, do antigo horizonte de expectativas. Não há aqui perigo de uma regressão infinita. Se formos recuando até teorias e mitos cada vez mais primitivos, acabaremos finalmente por encontrar expectativas inconscientes e inatas.

KARL POPPER, Conjecturas e Refutações, 1963, trad. de Benedita Bettencourt, pp. 72-74.

Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: