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O Papel da Indução na Ciência Carl Hempel

by em Junho 15, 2012

O Papel da Indução na Ciência

Carl Hempel

 

Por vezes concebe-se a indução como um método que conduz, através de regras mecanicamente aplicáveis, de factos observados a princípios gerais correspondentes. As regras de inferência indutiva proporcionariam assim cânones eficazes de descoberta científica; a indução seria um procedimento mecânico análogo à rotina familiar para multiplicar números inteiros, a qual conduz, num passo finito de passos predeterminados e mecanicamente realizáveis, ao produto correspondente.

Na verdade, não dispomos agora de um procedimento indutivo mecânico e geral, […] nem se pode esperar que alguma vez se descubra um procedimento como esse, já que – para indicar apenas uma razão – as hipóteses e teorias científicas costumam ser formuladas em termos que não ocorrem de forma alguma na descrição das descobertas empíricas em que se baseiam e que servem para explicar. Por exemplo, as teorias sobre a estrutura atómica e subatómica da matéria contêm termos como «átomo», «electrão», «protão» e «neutrão», mas baseiam-se em descobertas laboratoriais […] que podem ser descritas sem estes «termos teóricos». […]

Não existem, então, «regras da indução» com aplicabilidade geral, pelas quais hipóteses ou teorias possam ser derivadas ou inferidas mecanicamente a partir de dados empíricos. A transição dos dados para a teoria exige imaginação criativa. As hipóteses e teorias científicas não são derivadas dos factos observados, mas inventadas de modo a explicá-los. […]

No seu esforço de encontrar uma solução para o seu problema, o cientista pode soltar a sua imaginação e o curso do seu pensamento criativo pode ser influenciado até por noções cientificamente questionáveis. Por exemplo, no seu estudo sobre o movimento planetário, Kepler foi inspirado pelo seu interesse numa doutrina mística sobre números e por uma paixão por demonstrar a música das esferas. Porém, a objectividade científica é salvaguardada pelo princípio de que as hipóteses e teorias científicas, embora possam ser livremente inventadas e propostas na ciência, só podem ser aceites no corpo do conhecimento científico se passarem pelo escrutínio crítico, que inclui particularmente o confronto de previsões apropriadas com observações ou experiências cuidadosas. […]

[M]esmo muitos testes com resultados inteiramente favoráveis não comprovam conclusivamente uma hipótese; proporcionam-lhe apenas um apoio mais ou menos forte. Assim, embora a investigação científica seguramente não seja indutiva no sentido estrito […], pode-se dizer que é indutiva num sentido mais amplo, na medida em que envolve a aceitação de hipóteses a partir de dados que não as implicam dedutivamente, mas que as confirmam ou lhes dão um «apoio indutivo » mais ou menos forte. E quaisquer «regras da indução» terão de ser concebidas, à semelhança das regras da dedução, como cânones de validação, e não de descoberta.

 

CARL HEMPEL, Filosofia das Ciências da Natureza, 1966,

trad. de Pedro Galvão, pp. 14-18.

From → Ciência

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