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Linguagem Comum e Linguagem Científica Ernest Nagel

by em Junho 15, 2012

Linguagem Comum e Linguagem Científica

Ernest Nagel

Uma característica notável de muita da informação que adquirimos através da experiência comum é que, embora ela possa ser suficientemente precisa dentro de certos limites, raramente é acompanhada por qualquer explicação que nos diga por que se deram os factos alegados. Deste modo, as sociedades que descobriram os usos da roda habitualmente nada sabiam sobre forças de fricção, nem sobre as razões que fazem que os bens colocados em veículos com rodas possam ser transportados com mais facilidade do que os bens arrastados pelo chão. Muitas pessoas aprenderam que era aconselhável estrumar os seus campos agrícolas, mas poucas se preocuparam com as razões para agir assim. As propriedades medicinais de plantas como a dedaleira foram reconhecidas há séculos, embora habitualmente não se tenha oferecido qualquer explicação das suas propriedades benéficas. Além disso, quando o «senso comum» tenta dar explicações para os seus factos – como quando se explica o valor da dedaleira como estimulante cardíaco através da semelhança entre a forma da flor e a do coração humano – muitas vezes não há testes da relevância das explicações para os factos. […]

É o desejo de explicações que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através de dados factuais que gera a ciência, e é a organização e classificação do conhecimento segundo princípios explicativos que é o objectivo próprio das ciências. […]

Na sua procura de explicações sistemáticas, as ciências devem reduzir a indeterminação da linguagem comum, remodelando-a. […] O artesão que trabalha com metais pode ficar satisfeito por saber que o ferro é mais duro do que o chumbo, mas o físico que quer explicar este facto tem de ter uma medida precisa da diferença de dureza. Uma consequência óbvia, mas importante, da precisão assim introduzida é as proposições poderem ser testadas pela experiência de uma maneira mais crítica e cuidada. As crenças pré-científicas são frequentemente insusceptíveis de testes experimentais definidos, simplesmente por serem compatíveis de uma maneira vaga com uma classe indeterminada de factos por analisar. […]

O maior rigor da linguagem científica ajuda a esclarecer o facto de muitas crenças do senso comum terem uma estabilidade […] que poucas teorias científicas possuem. É mais difícil construir uma teoria que, depois de confrontos repetidos com os resultados de observações experimentais rigorosas, permaneça inabalada, quando os critérios para o acordo que se deve obter entre esses dados experimentais e as previsões extraídas da teoria são exigentes do que quando esses critérios são vagos […].

 

ERNESTE NAGEL, A Estrutura da Ciência, 1961, trad. de Pedro Galvão, pp. 3-9

From → Ciência

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