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Kuhn e a Incomensurabilidade dos Paradigmas Alan Sokal e Jean Bricmont

by em Junho 15, 2012

Kuhn e a Incomensurabilidade dos Paradigmas

Alan Sokal e Jean Bricmont

[Uma] objecção que pode colocar-se à versão radical de Kuhn da história da ciência é a da auto-refutação […]. O estudo da história do homem, em particular o da história da ciência, é elaborado segundo métodos que não são radicalmente diferentes dos utilizados nas ciências exactas: estudamos documentos, buscamos as inferências mais racionais, procedemos a induções baseadas nos dados disponíveis, etc. Se o mesmo tipo de argumentos utilizados em física ou em biologia não nos permitisse chegar a conclusões mais ou menos fiáveis, por que motivo haveríamos de confiar neles em história? Porquê falar de categorias históricas, como os paradigmas, de um modo realista, se é uma ilusão falar de um modo realista acerca dos conceitos científicos (que são efectivamente definidos com maior precisão), como os electrões ou o ADN?

Mas podemos ir um pouco mais longe. É natural introduzir uma hierarquia no grau de certeza que se concede às diferentes teorias, dependendo da quantidade e da qualidade dos argumentos que sustentam essas teorias. Todos os cientistas […] procedem desta maneira ao concederem uma maior probabilidade […] às teorias mais bem estabelecidas (a evolução das espécies, por exemplo, ou a existência dos átomos) e uma menor probabilidade […] às teorias mais especulativas (por exemplo, as teorias pormenorizadas da gravitação quântica). O mesmo raciocínio se aplica quando se comparam teorias científicas com teorias históricas ou sociológicas. As provas a favor da rotação da Terra, por exemplo, são bastante mais fortes do que as que Kuhn poderia

avançar a favor de qualquer uma das suas teorias. É evidente que isto não significa que os físicos sejam mais inteligentes do que os historiadores, nem que utilizem melhores métodos, apenas significa que os problemas que os primeiros estudam são, de um modo geral, menos complexos, comportando um número muito menor de variáveis, que, além disso, são mais fáceis de medir e controlar. Torna-se inevitável introduzir esta hierarquia nas nossas crenças, o que implica que nenhum argumento concebível baseado na visão kuhniana da história pode […] colocar em causa, de uma forma geral, a fiabilidade dos conhecimentos científicos.

ALAN SOKAL e JEAN BRICMONT, Intermezzo: o Relativismo Cognitivo na Filosofia das Ciência, 1999, trad. de Nuno Crato e Carlos Veloso, pp. 83–84.

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