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Das Coisas Que Se Podem Colocar Em Dúvida

by em Junho 15, 2012

MEDITAÇÃO 1ªDAS COISAS QUE SE PODEM COLOCAR EM DÚVIDA

Há já algum tempo que me apercebi de que, desde os meus primeiros anos de vida, eu havia recebido uma quantidade de opiniões falsas, tomando-as por verdadeiras, e de que o que depois fundei sobre princípios tão pouco seguros só podia ser muito duvidoso e incerto; de modo que tinha de empreender seriamente a tarefa de, uma vez na vida, me livrar de todas as opiniões em que havia até então acreditado e começar tudo de novo, desde os primeiros fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências.(…)

Agora, pois, que o meu espírito está livre de todas as preocupações e eu me proporcionei um repouso seguro, numa calma solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em destruir, de um modo geral, todas as minhas antigas opiniões. Ora, para chegar a este objectivo não será necessário provar que elas são todas falsas (provavelmente nem sequer o conseguiria); uma vez que a razão logo me persuade de que devo impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis com o mesmo cuidado com o que faço relativamente às que nos parecem manifestamente falsas, bastará encontrar o menor motivo de dúvida numa, para as rejeitar a todas. E, por isso, não há necessidade de examinar cada uma delas em particular, o que redundaria num trabalho infinito: uma vez que a ruína dos fundamentos arrasta necessariamente consigo tudo o resto do edifício, começarei por atacar os princípios sobre os quais estavam apoiadas todas as minhas antigas opiniões. (…)

Tudo o que recebi até hoje como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos, ou através dos sentidos: ora, já senti algumas vezes que os sentidos eram enganadores, e é da mais elementar prudência nunca acreditarmos totalmente naqueles que nos enganaram uma vez.

Mas, e ainda que por vezes os sentidos nos enganem sobre coisas pouco sensíveis e muito apartadas encontram-se, talvez, muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, apesar de as conhecermos através deles: por exemplo, de que estou aqui, sentado junto à lareira, vestindo um robe, tendo este papel nas mãos, e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo são meus? Só se fosse como aqueles insensatos, cujo cérebro é tão perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bílis, que garantem que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão totalmente nus; ou imaginam serem bilhas ou terem um corpo de vidro. Ora, esses são loucos, e eu não o seria menos se me regulasse pelos seus exemplos. (…)

RENÉ DESCARTES, Meditações Metafísicas,Trad. Regina Pereira, Rés Editora, 2003, pág. 9-19

From → Descartes

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