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Definição Tripartida do Conhecimento

by em Março 15, 2012

DEFINIÇÃO TRIPARTIDA DO CONHECIMENTO

SÓCRATES: Diz-me, então, qual a melhor definição que poderíamos dar de conhecimento, para não nos contradizermos?

(…) TEETETO: A de que a crença verdadeira é conhecimento? Certamente que a crença verdadeira é infalível e tudo o que dela resulta é belo e bom.

(…) SÓCRATES: O problema não exige um estudo prolongado, pois há uma profissão que mostra bem como a crença verdadeira não é conhecimento.

TEETETO: Como é possível? Que profissão é essa?

SÓCRATES: A desses modelos de sabedoria a que se dá o nome de oradores e advogados. Tais indivíduos, com a sua arte, produzem convicção, não ensinando mas fazendo as pessoas acreditar no que quer que seja que eles queiram que elas acreditem. Ou julgas tu que há mestres tão habilidosos que, no pouco tempo concebido pela clepsidra, sejam capazes de ensinar devidamente a verdade acerca de um roubo ou qualquer outro crime a ouvintes que não foram testemunhas do crime?

TEETETO: Não creio, de forma nenhuma. Eles não fazem senão persuadi-los.

SÓCRATES: Mas para ti persuadir alguém, não será levá-lo a acreditar em algo?

TEETETO: Sem dúvida.

SÓCRATES: Então, quando há juízes que se acham justamente persuadidos de factos que só uma testemunha ocular, e mais ninguém, pode saber, não é verdade que, ao julgarem esses factos por ouvir dizer, depois de terem formado deles uma crença verdadeira, pronunciam um juízo desprovido de conhecimento, embora tendo uma convicção justa, se deram uma sentença correcta?

TEETETO: Com certeza.

SÓCRATES: Mas, meu amigo, se a crença verdadeira e o conhecimento fossem a mesma coisa, nunca o melhor dos juízes teria uma crença verdadeira sem conhecimento. A verdade, porém, é que se trata de duas coisas distintas.

TEETETO: Eu mesmo já ouvi alguém fazer essa distinção, Sócrates; Tinha-me esquecido dela, mas voltei a lembrar-me. Dizia essa pessoa que a crença verdadeira acompanhada de razão (logos[1]) é conhecimento e que desprovida de razão (logos), a crença está fora do conhecimento (…).

PLATÃO, Teeteto, Trad. de Adriana Manuela Nogueira e Marcelo Boeri, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.


[1] Aquilo que Platão designa por “logos” é o que tradicionalmente se passou a designar “justificação”.

From → Conhecimento

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