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Cóntra-exemplos de Edmund Gettier à Definição Tradicional de Conhecimento

by em Março 15, 2012

CONTRA-EXEMPLOS DE GETTIER

 

Nos últimos anos tentou-se várias vezes estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição. Essas tentativas podem ser formuladas de modo semelhante ao seguinte:

 

a)      S sabe que P se, e só se,

 

i)                    P é verdadeira.

ii)                  S acredita que P.

iii)                Há uma justificação para S acreditar que P.

 

(…) Irei argumentar que a) é falsa, pois as condições dadas acima não constituem uma condição suficiente para a verdade da proposição de que S sabe que P.

 

(…) Irei começar por chamar a atenção para dois aspectos. Em primeiro lugar, no sentido de “justificação” segundo o qual deve haver uma justificação para S acreditar que P é uma condição necessária para que S saiba que P, é possível que a crença de uma pessoa numa certa proposição esteja justificada e essa proposição ser de facto falsa. Em segundo lugar, para toda a proposição P, se há uma justificação para S acreditar que P, e P implica Q, e S deduz Q de P, e aceita Q como resultado desta dedução, então a crença de S em Q está justificada. Tomando em consideração estes dois aspectos, irei passar a apresentar dois casos nos quais as condições estabelecidas em a) se verificam para algumas proposições, apesar de ser ao mesmo tempo falso que a pessoa em causa conheça essa proposição.

 

(…) Suponha-se que Smith e Jones se tinham candidatado a um certo emprego. E suponha-se que Smith possui fortes indícios a favor da seguinte proposição conjuntiva:

 

d) Jones é o homem que vai conseguir o emprego, e Jones tem dez moedas no bolso.

 

Os indícios que Smith tem a favor de d) podem ser os de que o presidente da companhia lhe tenha assegurado que Jones seria o que acabaria por ser selecionado e que ele, Smith, tenha contado as moedas do bolso de Jones há dez minutos. A proposição d) implica:

 

e) o homem que vai ficar com o emprego tem dez moedas no bolso.

 

Suponha-se que Smith vê que d) implica e) e que aceita e) com base em d), para a qual ele tem fortes indícios a seu favor. Neste caso, a crença de Smith de que e) é verdadeira está claramente justificada.

 

Mas, imagine-se que, além disso, sem Smith o saber, é ele e não Jones que vai ficar com o emprego. Imagine-se também que, sem ele próprio o saber, tem dez moedas no bolso.

 

A proposição e), é verdadeira, apesar de a proposição d), a partir da qual Smith inferiu e), ser falsa. Assim, no nosso exemplo, as seguintes proposições são verdadeiras:

 

1)      e) é verdadeira.

2)      Smith acredita que e) é verdadeira.

3)      A crença de Smith de que e) é verdadeira está justificada.

 

Mas é igualmente claro que Smith não sabe que e) é verdadeira, pois e) é verdadeira em virtude das moedas que estão no bolso de Smith, ao passo que Smith não sabe quantas moedas tem no bolso e baseia a sua crença em e) no facto de ter contado as moedas do bolso de Jones, que ele erradamente acredita tratar-se do homem que irá ficar com o emprego.

 

GETTIER, EDMUND, Is Justified True Belief Knowledge?, in Analysis, 23:121-123.

From → Conhecimento

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