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A origem das ideias

by em Março 15, 2012

Um homem atacado por um acesso de raiva é afectado de maneira muito diferente de um outro que apenas pensa nessa emoção. Se me dizem que uma certa pessoa está apaixonada, entendo facilmente o que se quer dizer e faço uma ideia adequada da situação dessa pessoa, mas jamais confundiria essa ideia com os tumultos e agitações reais da paixão. Quando reflectimos sobre as nossas experiências e afectos passados, o nosso pensamento age como um espelho fiel e copia correctamente os objectos, mas as cores que emprega são pálidas e sem brilho em comparação com aquelas de que estavam revestidas as nossas percepções originais. Não se exige qualquer fino discernimento ou grande capacidade metafísica para assinalar a diferença entre elas.[…]

Como prova disto, espero que sejam suficientes os dois seguintes argumentos. Em primeiro lugar, quando analisamos os nossos pensamentos ou ideias, por mais complexos ou sublimes que possam ser, sempre constatamos que eles se decompõem em ideias simples copiadas de alguma sensação ou sentimento precedente. Mesmo quanto àquelas ideias que, à primeira vista, parecem mais distantes dessa origem constata-se, após um exame mais apurado, que dela são derivadas. A ideia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondoso, deriva da reflexão sobre as operações da nossa própria mente e de aumentar sem limites aquelas qualidades de bondade e sabedoria. Podemos prosseguir o quanto quisermos nesta investigação, que em cada ideia que examinarmos sempre vamos constatar que ela é copiada de uma impressão semelhante.

Todos quantos afirmarem que esta proposição não é universalmente verdadeira nem livre de excepções, só têm um método, aliás bastante fácil, para a refutar: apresentar aquela ideia que, na sua opinião, não deriva dessa fonte. Competir-nos-á depois, se quisermos manter a nossa doutrina, apresentar a impressão ou percepção vívida que lhe corresponde.

Em segundo lugar, se acontecer, devido a algum defeito orgânico, que uma pessoa seja incapaz de experimentar alguma espécie de sensação, sempre constatamos que ela é igualmente incapaz de conceber as ideias correspondentes. Um cego não pode ter noção das cores, nem um surdo dos sons. Restitua-se a qualquer um deles aquele sentido em que é deficiente e, ao abrir-se essa nova entrada para as suas sensações, abrir-se-á também uma entrada para as ideias, e ele deixará de ter qualquer dificuldade na concepção desses objectos. O caso será o mesmo se o objecto adequado para produzir alguma sensação nunca tiver sido posto em contacto com o respectivo órgão: um lapão ou um negro não tem ideia do sabor do vinho.

David Hume, Investigação Sobre o Entendimento Humano, 1748, UNESP, pp. 32-36.

From → David Hume

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