Skip to content

Texto “A Natrureza do Juízo de Gosto”

by em Dezembro 3, 2011

A NATUREZA DO JUÍZO DE GOSTO

O agradável e o bom têm ambos uma referência à faculdade de apetição e nesta medida trazem consigo, aquele um comprazimento patologicamente determinado (por estímulos), este um comprazimento prático, o qual não é determinado simplesmente pela representação do objecto, mas ao mesmo tempo pela representada conexão do sujeito com a existência do mesmo. Não simplesmente o objecto lhe apraz, mas também a sua existência.

Contrariamente, o juízo de gosto é meramente contemplativo, isto é, um juízo que, indiferente à existência de um objecto, só considera a sua natureza em comparação com o sentimento de prazer e desprazer. Mas esta própria contemplação é tão pouco dirigida a conceitos: pois o juízo de gosto não é nenhum juízo de conhecimento (nem teórico, nem prático) e por isso tão-pouco é fundado em conceitos, nem os tem por fim.

O agradável, o belo e o bom designam, portanto, três relações diversas das representações ao sentimento de prazer e desprazer, com referência ao qual distinguimos entre si objectos ou modos de representação. (…) Agradável significa para alguém aquilo que o deleita; belo, aquilo que meramente me apraz, bom, aquilo que é estimado, aprovado, isto é, onde é posto por ele um valor objectivo.

(…) Com respeito ao agradável cada um resigna-se com o facto de que o seu juízo, que ele funda sobre um sentimento privado e mediante o qual diz de um objecto que este lhe apraz, limita-se também simplesmente à sua pessoa. Por isso de bom grado contenta-se com o facto de que, se ele diz: ”o vinho espumante das Canárias, é agradável”, um outro corrige-lhe a expressão e recorda-lhe que deve dizer “ele é-me agradável”; e assim não somente no gosto da língua, do céu-da-boca e da garganta, mas também no que possa ser agradável aos olhos e ouvidos de cada um. Pois a um a cor violeta é suave e amena, a outra morta e fenecida. Um ama o som dos instrumentos de sopro, outro, o dos instrumentos de corda. Altercar sobre isso, com o objectivo de censurar como incorrecto o juízo dos outros, que é diverso do nosso, como se fosse logicamente oposto a este, seria tolice; portanto, acerca do agradável vale o princípio: cada um tem o seu próprio gosto (dos sentidos).

Com o belo passa-se de modo totalmente diverso (precisamente ao contrário). Seria ridículo se alguém, que se gabasse do seu gosto, pensasse justificar-se com isto: este objecto (o edifício vemos, o traje que aquele veste, o concerto que ouvimos, o poema que é apresentado ao julgamento) é, para mim, belo. Pois ele não tem que dominá-lo belo se meramente lhe apraz. Muita coisa pode ter atractivo e agrado para si, com isso ninguém se preocupa; se porém toma algo por belo, então atribui a outros precisamente o mesmo comprazimento: ele não julga simplesmente por si, mas por qualquer um e neste caso fala da beleza como se ela fosse uma propriedade das coisas. Por isso diz: a coisa é bela, e não conta com o acordo unânime de outros no seu juízo de comprazimento porque ele a tenha considerado mais vezes em acordo com o seu juízo, mas exige-o deles. Censura-os se julgam diversamente e nega-lhes o gosto pretendendo todavia que eles devam possuí-lo; e nesta medida não se pode dizer: cada um possui o seu gosto particular. Isto equivaleria a dizer: não existe absolutamente gosto algum, isto é, um juízo estético que pudesse legitimamente reivindicar o assentimento de qualquer um.

Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, Lisboa, Imprensa Nacional, 1998.

From → 10º ano

Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: