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O que a ética é: uma perspectiva

by em Dezembro 3, 2011

O que a ética é: uma perspectiva

                O que se segue é um esboço de uma perspectiva da ética que concede à razão um papel importante nas decisões éticas. Não se trata da única perspectiva possível da ética, mas é uma perspectiva plausível. (…)

Qual a diferença entre uma pessoa que vive de acordo padrões éticos e outra que não procede assim? (…) Será que podemos determinar quais as pessoas que vivem de acordo com padrões éticos e quais as que não o fazem? Poderíamos pensar que a forma de proceder, neste caso, é identificar, por um lado, quem pensa que mentir, enganar, roubar, etc., é uma mal e não faz tais coisas e, por outro lado, quem assim não pensa, não se coibindo de fazer tais coisas. Então as pessoas pertencentes ao primeiro grupo viveriam de acordo com padrões éticos e as do segundo não. Mas este modo de proceder identifica erradamente duas distinções: a primeira é a distinção entre viver de acordo com aquilo (que nós pensamos) que são os padrões éticos correctos e viver de acordo com aquilo (que nós pensamos) que são os padrões éticos errados; a segunda é a distinção entre viver de acordo com alguns padrões éticos e de acordo com nenhuns padrões éticos. Quem mente e engana, mas não pensa que o que faz é um mal, pode estar a viver de acordo com padrões éticos. Pode pensar, por um motivo qualquer, que mentir, roubar, etc., é um bem. Não vive de acordo com padrões éticos comuns, mas pode viver segundo outros padrões éticos. (…)

Chegamos à conclusão de que temos de conceder que quem segue convicções éticas não convencionais, vive, mesmo assim, de acordo com padrões éticos, se pensar, por qualquer motivo, que o que faz é um bem. (…) A noção de viver de acordo com padrões éticos está ligada à noção da defesa da forma como se vive, de dar uma razão para tal, de a justificar. (…) Podemos achar a justificação pouco adequada e continuar a pensar que as acções são um mal, mas a tentativa de justificação, bem sucedida ou não, é suficiente para trazer o comportamento dessa pessoa para o domínio do ético, em oposição ao não ético. (…) No entanto, uma justificação exclusivamente em termos pessoais não serve. (…) É necessário mostrar que as acções motivadas pelo interesse pessoal são compatíveis com princípios éticos de base mais ampla para serem defensáveis, porque a noção de ética traz consigo a ideia de algo mais vasto do que o individual. Se eu quiser defender o meu comportamento com fundamentos éticos, não posso assinalar apenas os benéficos que tal comportamento me traz a mim. Tenho de me preocupar com um grupo mais vasto.

Desde a antiguidade que os filósofos e os moralistas têm expressado a ideia de que o comportamento ético é aceitável de um ponto de vista que é, de alguma forma, universal. (…) Ou seja, não se pode justificar um princípio ético relativamente a qualquer grupo parcial local. A ética adopta um ponto de vista universal.

Singer, Peter, Ética Prática, Gradiva, Lisboa 2ª Edição, 2002, pp. 24, 25, 26, 27, 28 e 29

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