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O Propósito da Vida

by em Dezembro 3, 2011

O propósito da vida

 

Kurt Baier

Há […] duas acepções muito diferentes de «propósito». […]

Que acepções são essas? A primeira acepção, mais básica, só se atribui, normalmente, a pessoas ou ao seu comportamento como em «Para que deixaste o carro a trabalhar?» No segundo sentido, o propósito só se atribui normalmente às coisas, como em «Para que serve aquela engenhoca que instalaste na garagem?» As duas acepções estão intimamente relacionadas. Não podemos atribuir um propósito a uma coisa sem sugerir que alguém fez algo de tal modo que, ao fazê-lo, essa pessoa tinha um propósito, nomeadamente, dar origem à coisa com esse propósito. Claro, o propósito dessa pessoa não é a mesma coisa que o propósito da coisa. Ao contratar trabalhadores e engenheiros e ao comprar materiais e um terreno para uma fábrica, o propósito do empresário é, digamos, fazer carros, mas o propósito dos carros é servirem como meio de transporte.

Há muitas coisas que um homem pode fazer, tais como comprar e vender, contratar trabalhadores, lavrar a terra, derrubar árvores, etc., que serão tolas, sem sentido, tontas e talvez loucas se não tivermos qualquer propósito em vista ao fazê-las. Um homem que faz estas coisas sem qualquer propósito estará a entregar-se a tarefas inanes e fúteis. Vidas preenchidas com tais actividades sem propósito serão destituídas de razão de ser, fúteis e sem valor. Tais vidas podem realmente ser consideradas sem sentido.

Em contraste, ter ou não ter um propósito, na outra acepção, é algo neutro quanto ao valor.

Não prezamos mais ou menos uma coisa por ter ou não um propósito. «Ter um propósito», neste sentido, não confere qualquer prestígio, e «não ter um propósito» não acarreta qualquer estigma.

Uma fila de árvores perto de uma quinta pode ter ou não um propósito: pode servir ou não para cortar o vento, as árvores podem ter sido ou não plantadas naquele local ou ali deixadas propositadamente para evitar que os ventos assolem os campos. De modo algum depreciamos as árvores se dissermos que não têm qualquer propósito, tendo-se limitado a crescer assim. São tão belas, feitas de madeira tão boa e são tão valiosas como se tivessem um propósito. E, claro, cortam o vento igualmente bem. O mesmo acontece com criaturas vivas. Não depreciamos um cão quando dizemos que não tem qualquer propósito, não é um cão pastor nem um cão polícia nem um cão para caçar coelhos, mas apenas um cão que anda pela casa e que nós alimentamos.

Contudo, o homem pertence a uma categoria completamente diferente. Atribuir a um ser humano um propósito nesta acepção não é neutro, nem sequer lisonjeiro: é ofensivo. É degradante para um homem ser encarado meramente como algo que serve um propósito. Se, numa festa, eu perguntar a um empregado «Qual é o seu propósito?», estarei a insultá-lo. Poderia igualmente ter-lhe perguntado «Para que serve você?». Tais questões reduzem-no ao nível de uma geringonça, um animal doméstico, ou talvez um escravo. Estou a sugerir que nós lhe atribuímos as tarefas, os objectivos, os fins que ele deve procurar alcançar; que as suas aspirações e desejos e propósitos pouco ou nada contam. Estamos a tratá-lo, na expressão de Kant, meramente como um meio para os nossos fins, e não como um fim em si.

Kurt Baier, «O Sentido da Vida», 1957, trad. de Desidério Murcho, pp. 119-120.

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