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O Especismo

by em Dezembro 3, 2011

O especismo[1] na prática. Animais para alimentação

Para a maioria das pessoas das modernas sociedades urbanas, a principal forma de contacto com os animais não humanos é à hora das refeições (…) Trata-se também da forma mais básica de utilização dos animais, a pedra basilar em que assenta a crença de que os animais existem para o nosso prazer e convivência.

Se os animais contarem por si mesmos, a utilização que fizermos deles para a alimentação torna-se questionável – em especial quando a carne dos animais representa mais um luxo que uma necessidade. Os esquimós, que vivem num ambiente em que têm de matar animais para a sua alimentação ou morrer de fome, podem justificar-se dizendo que o seu interesse em sobreviver se sobrepõe ao dos animais que matam. A maioria de nós não pode defender a sua dieta deste modo. Os cidadãos das sociedades industrializadas podem facilmente obter uma alimentação adequada sem a utilização da carne dos animais. O peso esmagador das provas médicas indica que a carne dos animais não é necessária para a boa saúde nem para a longevidade. Tão-pouco é a produção de animais nas sociedades industrializadas uma forma eficiente de produção de alimentos, dado que a maioria dos animais consumidos foi engordada com cereais ou outros alimentos que poderíamos comer directamente. Quando alimentamos esses animais com cereais, apenas cerca de 10% do valor nutritivo se conserva na forma de carne para consumo humano. Portanto, com excepção dos animais criados inteiramente à base de terras de pastagens impróprias para cultivo, os animais não são comidos por motivos de saúde nem para aumentar a nossa quantidade disponível de alimentos. A sua carne é consumida como um luxo, porque as pessoas apreciam o seu sabor.

Ao avaliarmos a ética da utilização da carne de animais na alimentação humana nas sociedades industrializadas, estamos a considerar uma situação na qual um interesse humano relativamente menor tem de ser contrabalançado pelas vidas e pelo bem estar dos animais afectados. O princípio da igualdade na consideração de interesses não permite que interesses maiores sejam sacrificados a interesses menores.

A argumentação contra a utilização de animais para a alimentação ganha especial relevância quando os animais são submetidos a condições de vida miseráveis, para os seres humanos disporem da sua carne ao mais baixo custo possível. As modernas formas de criação intensiva aplicam a ciência e a tecnologia em prol da atitude segundo a qual os animais são objectos para o nosso uso. Para ter carne a um preço acessível, a nossa sociedade tolera métodos de produção de carne em que se aprisionam animais sencientes em condições superlotadas inadequadas durante a totalidade da sua vida. Os animais são tratados como máquinas que convertem forragem[2] em carne e toda a inovação que resulta numa taxa de conversão mais elevada é susceptível de ser adoptada. A crueldade só é reconhecida quando o lucro cessa. Para evitar o especismo temos de pôr fim a essas práticas. A nossa prática habitual é tudo aquilo que a pecuária industrial necessita. Estes argumentos aplicam-se a animais criados em unidades industriais (…) e não nos forçam adoptar na integra uma dieta vegetariana, uma vez que certos animais, como as cabras e as ovelhas e, em certos países, as vacas, ainda pastam livremente no campo. (…) A vida dos animais no campo é decerto melhor que a dos animais criados em unidades industriais. Continua, porém, a ser duvidoso que utilizá-los para a alimentação seja compatível com a igualdade na consideração de interesses.

(…) A questão importante não é saber se a carne dos animais poderia ser produzida sem sofrimento, mas se a carne que estamos a considerar comprar foi produzida sem sofrimento. A não ser que possamos acreditar nisso, o princípio da igualdade na consideração de interesses implica que é um erro sacrificar importantes interesses do animal para satisfazer interesses menores da nossa parte, consequentemente devíamos boicotar o resultado final deste processo.

Singer, Peter, Ética Prática, Gradiva, Lisboa 2ª Edição, 2002, pp. 82, 83, 84 e 85.


[1] Especismo é a atribuição de valores ou direitos diferentes a seres dependendo da sua afiliação a determinada espécie. O termo foi cunhado e é usado principalmente por defensores dos direitos animais para se referir à discriminação que envolve atribuir a animais sencientes diferentes valores e direitos baseados na sua espécie, nomeadamente quanto ao direito de propriedade ou posse.

[2] Ferrã, verde, erva (para alimento dos cavalos e muares).2. Pasto (para toda a espécie de gado).

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