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O desenvolvimento de uma ética ambiental

by em Dezembro 3, 2011

O desenvolvimento de uma ética ambiental

(…) Uma ética do meio ambiente consideraria eticamente duvidoso todo o acto nocivo para o ambiente e os actos desnecessariamente prejudiciais como males claros. Uma ética do meio ambiente acharia que poupar e reciclar recursos seria virtuoso e que o consumo extravagante e desnecessário seria uma depravação. Por exemplo, actualmente encaramos a opção entre corridas de automóveis ou de bicicletas, entre esqui aquático e windsurf, uma mera questão de gosto. No entanto, as corridas de automóveis e o esqui aquático exigem o consumo de combustíveis fósseis e a descarga do dióxido de carbono na atmosfera. As corridas de bicicleta e de windsurf, não. Quando levamos a sério a necessidade de preservar o ambiente, as corridas de automóveis e o esqui aquático deixarão de ser formas aceitáveis de entretenimento, tal como hoje já não é aceitável lançar cães contra ursos acorrentados para os enraivecer. (…)

Ao seu nível mais fundamental, uma tal ética promove a consideração pelos interesses de todas as criaturas sencientes, incluindo as gerações subsequentes que se projectam no futuro distante. É acompanhada por uma estética de apreço pelos lugares selvagens e pela natureza intacta. (…) Uma ética do meio ambiente rejeita os ideais de uma sociedade materialista, na qual o êxito é medido pelo número de artigos de consumo que uma pessoa consegue acumular. Em seu lugar, ajuíza o êxito em termos do desenvolvimento das potencialidades de cada qual e da conquista da auto-realização e da felicidade. Promove a frugalidade[1], na medida em que é necessária para minimizar a poluição e garantir que tudo pode ser reutilizado vezes sem conta. Deitar fora descuidadamente materiais que podem ser reciclados é uma forma de vandalismo, é roubar recursos do planeta que são nossa propriedade comum. Assim, os diversos guias e livros do “consumidor verde” sobre as coisas que podemos fazer para salvar o nosso planeta – reciclando o que usamos e comprando os artigos ambientalmente mais inócuos[2] possível – fazem parte da ética que se torna necessária. Mas até estas opções se podem revelar uma solução provisória, um degrau para uma ética na qual a própria ideia de consumir produtos desnecessários seja posta em causa. O windsurf pode ser melhor que o esqui aquático, mas, se continuarmos a comprar novas pranchas para estarmos na crista da onda das últimas tendências da moda em pranchas e velas, a diferença torna-se insignificante. Temos de avaliar a nossa noção de extravagância. Num mundo sujeito a grande pressão, este conceito não se limita a carros de luxo com motorista ou a champanhe Dom Perignon. A madeira proveniente de uma floresta tropical húmida é extravagante porque o valor a longo prazo da floresta tropical é de longe maior que as utilizações dadas à madeira. Os produtos de papel que se deitam foram são extravagantes porque florestas antigas estão a ser transformadas em toros de madeira e a ser vendidas aos fabricantes de papel. Dar um passeio de carro pela província constitui uma utilização extravagante de combustíveis fosseis que contribui para o efeito de estufa.

No que diz respeito à alimentação, a grande extravagância não é o caviar ou as trufas[3], mas a carne de vaca, a carne de porco e o frango. Cerca de 38% da produção mundial de cereais serve actualmente para alimentar animais, assim como grande quantidade de soja. Há três vezes mais animais domésticos neste planeta do que seres humanos. O peso total dos efectivos mundiais de gado bovino excede, só por si, o da população humana. (…) Os métodos de energia intensiva da agropecuária industrial dos países desenvolvidos são responsáveis pelo consumo de quantidades enormes de combustíveis fósseis. Os fertilizantes químicos usados para a produção de rações para o gado e os porcos e galinhas criados em recintos fechados produzem óxido nitroso[4], outro gás que causa o efeito de estufa. Depois há a perda das florestas. Por todo o lado, os habitantes das florestas, tanto humanos como não humanos, estão a ser escorraçados. Desde 1960, 25% das florestas da América Central foram abatidas para se criar gado. Os solos pobres suportam pastagens durante alguns anos, após o que se torna necessário procurar novas pastagens. Os arbustos invadem as terras de pastagens abandonadas, mas a floresta não regressa. Quando as florestas são abatidas para se criarem pastagens para o gado, biliões de toneladas de dióxido de carbono são libertadas na atmosfera. Por fim, pensa-se que o gado mundial produz cerca de 20% de metano[5] libertado na atmosfera e o metano capta vinte e cinco vezes mais calor do Sol que o dióxido de carbono. O estrume das explorações agropecuárias também produz metano, porque, ao contrário do estrume depositado naturalmente nos campos, não se decompõe na presença do oxigénio. Tudo isto corresponde a uma razão imperiosa, em favor de uma alimentação baseada sobretudo em vegetais.

A ênfase na frugalidade e numa vida simples não significa que a ética do meio ambiente veja com maus olhos o prazer, mas que os prazeres que valoriza não advêm de um consumo exagerado. Porém, em vez disso, de relações pessoais e sexuais calorosas, da proximidade das crianças e dos amigos, da conversa, de desportos e entretenimentos que estão em harmonia com o nosso ambiente sem o agredirem; da alimentação que não se baseia na exploração de criaturas sencientes nem destrói a Terra; da actividade e do trabalho criativo de todos os tipos; e (com o devido cuidado para não se estragar precisamente o que é mais valioso) da apreciação dos lugares ainda intactos do mundo onde vivemos.

Singer, Peter, Ética Prática, Gradiva, Lisboa 2ª Edição, 2002, pp. 308, 309, 310, 311 e 312.

 


[1] frugalidade Qualidade de frugal. = sobriedade; temperança/frugal adj. 2 gén.adj. 2 gén.

1. Relativo a frutos.2. Que se alimenta de frutos, de vegetais. 3. Vegetariano. 4. Moderado na comida. 5. Sóbrio, simples.

[2] inócuo adj.adj.

1. Não nocivo.2. Inocente, inofensivo.

[3]trufa s. f.1. Cogumelo subterrâneo sem rama nem radículas que se emprega como condimento e para rechear; túbera.2. Rodilha; rodoiça.

[4]O óxido nitroso ou protóxido de nitrogênio (pt-Br), ou protóxido de azoto (pt-Pt) apresenta-se na forma de um gás incolor, composto de duas partes de nitrogênio e uma de oxigênio, cuja fórmula química é N2O e sua fórmula estrutural é N—N—O. O Óxido Nitroso é sempre usado na forma gasosa e normalmente manuseado na forma líquida em cilindros de alta pressão ou tanques criogênicos, porém vaporiza facilmente a baixas pressões.

[5] O metano é um gás incolor, sua molécula é tetraédrica e apolar (CH4), de pouca solubilidade na água e, quando adicionado ao ar se transforma em mistura de alto teor inflamável. É o mais simples dos hidrocarbonetos.

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