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Ciência – Conhecimento Científico

by em Dezembro 3, 2011

(…) Marco: Deixem-me dizer o que me ensinaram sobre esse assunto. O método utilizado na ciência é o método experimental (também designado por método científico simples) que tem três fases: a observação, a formulação de hipóteses e a verificação experimental (ou experimentação). O método experimental funciona basicamente deste modo: o cientista começa por observar os factos (observação); depois cria teorias para explicar esses factos (formulação de hipóteses); finalmente, realiza diversas experiências para verificar se a hipótese se confirma (verificação experimental). Quando a hipótese se confirma um grande número de vezes, deixa de ser encarada como uma simples hipótese e adquire o estatuto de Lei Científica. Fiz-me entender?

Carla: Perfeitamente. Só que nem tudo é tão simples como parece. Vê este caso do método experimental, que também se designa por método científico simples. Durante muito tempo foi considerado um método infalível. Ainda hoje há quem pense isso. Realmente, à primeira vista, parece não ter falhas: o cientista observa os factos, formula as hipóteses para os explicar e, se as coisas correrem bem, a hipótese que foi confirmada por todas as experiências feitas transforma-se em Lei Científica. Parece simples, não é?

Marco: pois para mim, não parece, é! (…)

Carla: Atenção que ninguém despreza a importância histórica do método experimental! Isso é um facto indiscutível. O que aconteceu foi que apareceram críticas tão perspicazes que não podem ser ignoradas. É, de resto, um dos problemas mais fascinantes da actual Filosofia da Ciência. Querem discuti-lo comigo?

Cláudia: Claro que sim. Estou bastante curiosa. Mas tenta ser clara e acessível, que eu não sou filósofa como tu!…

Carla: eu prezo muito a clareza, está descansada.

Marco: Ainda bem. É que tenho já uma pergunta para fazer.

Carla: Podes perguntar o que quiseres.

(…) Marco: A pergunta é simples: o que há de errado no método experimental?

Carla: Há aqui dois aspectos fundamentais: o primeiro tem a ver com a observação e o segundo com a indução.

Marco: já me explicas a seguir o que é isso da indução. Comecemos pelas críticas à observação.

Carla: Muito bem. A primeira crítica à observação é esta: ao contrário do que muitas vezes se pensa, a observação dos factos não é o ponto de partida da ciência.

Marco: Não é o ponto de partida porquê? Não é verdade que tudo começa com a observação?

Carla: Não. Há coisas que interferem na observação e que já existem em nós quando nos decidimos a observar algo com atenção. Que mais não seja, já temos algumas noções prévias sobre o que vamos observar ou, no mínimo, expectativas sobre o que vamos encontrar.

Marco: E o nosso conhecimento prévio e as nossas expectativas do que iremos provavelmente ver afectam o que vemos de facto. É isso que queres dizer?

Carla: Nem mais. Vou dar-te um exemplo. Imagina um pastor sem instrução que viveu sempre no campo e nunca foi à cidade. Não percebe nada de ciência e não faz a mínima ideia do que seja um laboratório científico. Um dia, essa pessoa é colocada diante de um microscópio electrónico. Ao seu lado está um físico. Ambos observam o microscópio com muita atenção. Será que estão a ver o mesmo?

Marco: As imagens que se formam nas retinas de ambos são decerto as mesmas…

Carla: Pois são, mas isso não significa que o pastor sem instrução e o físico estejam, de facto, a ver o mesmo. Observar algo não é apenas ter uma imagem na nossa retina. O físico reconheceria o instrumento que para ele seria um objecto identificável e cuja função teria para ele um sentido, enquanto que…

Marco: Para o pastor seria uma confusão de fios e metal, unidos de forma misteriosa.

Tomás: Em contrapartida, enquanto o pastor olha para o seu rebanho e se apercebe de imediato se as ovelhas estão assustadas com algo, o físico apenas vê uma paisagem bucólica e tranquila, digna de um postal ilustrado dos livros da Anita…

Carla: Então as observações não são imparciais!

Tomás: Mas não são apenas as observações: também não são imparciais as teorias científicas, as investigações nos laboratórios…Essa ideia da imparcialidade dos cientistas é uma história muito mal contada…

Carla: Ouve lá: do facto de as observações não serem imparciais não se segue que os cientistas façam “batota” para obter os resultados esperados! O argumento que estávamos a discutir é simples: 1- existem em nós expectativas e conhecimentos anteriores às observações; 2- essas expectativas e conhecimentos influenciam o que realmente vemos; 3- logo, as observações não são imparciais. É precisamente esta a segunda crítica que se pode fazer à observação: as observações não são imparciais.

Marco: Mas afinal, os cientistas fazem “batota” ou não?

Tomás: Ai tu não sabias? Pois olha que fazem e não é pouca! Mas isso ela não quer admitir, estão a perceber?…

Carla: Não se trata disso e tu sabes muito bem. Há provas perfeitamente evidentes de que essas falsificações de resultados acontecem realmente. Até aqui estamos de acordo. Só que tu aproveitas-te dessas e de outras situações do género para pôr tudo em causa: não só as teorias em que isso se verificou mas também a ciência de uma maneira geral e, inclusive, a própria racionalidade humana!

Cláudia: Ena, pá, a discussão está a ficar interessante! Gostava que vocês explicassem melhor os vossos argumentos sobre esse assunto. Pode ser?

Marco: Tem lá calma! Uma coisa de cada vez, se não se importam. Também a mim me interessa o tema, mas estávamos a abordar outro assunto que, tanto quanto eu me apercebi, não tinha ficado completamente esclarecido.

Carla: tens razão, é melhor irmos por partes. Estávamos a falar das críticas à ideia segundo a qual a observação é um ponto de partida seguro para a investigação científica. (…)

(…) Marco: A primeira objecção é esta: na prática, a indução parece funcionar. A sua utilidade não pode ser posta em causa, já que permite descobrir regularidades na Natureza e, desse modo, prevê o seu comportamento futuro. Não foi a ciência que fez com que fosse possível mandar pessoas à lua? Ora, se a própria ciência se baseia no princípio de indução com tão extraordinários resultados, porquê essa desconfiança?

Cláudia: Há sempre a possibilidade de o Sol não nascer amanhã ou de, como a galinha, nos torcerem o pescoço mal acordemos de manhã…

Marco: Ainda assim, penso que a indução é o melhor método que temos. Nenhuma outra forma de argumentação nos pode ajudar melhor a prever o futuro do que o princípio de indução. É esta a minha segunda objecção às críticas que estás a fazer à indução.

Carla: Já reparaste que a tua argumentação para defender o princípio da indução se apoia precisamente na aceitação do princípio da indução? Por outras palavras: é um argumento viciosamente circular.

Marco: Porquê?

Carla: Repara bem. Tu afirmas que, porque a indução demonstrou no passado ser bem-sucedida, sob vários aspectos, continuará a sê-lo no futuro.

Marco: E depois, qual é o problema?

Carla: O problema é que essa tua afirmação é ela própria uma generalização baseada num número específico de casos felizes de indução.

Cláudia: Já percebi! Ele estava a justificar a indução com um argumento indutivo!

Carla: Exactamente. Um argumento indutivo não pode justificar satisfatoriamente a indução. Isso seria uma petição de princípio.

Carlos Café, Eles Não Sabem Que Eu Sonho – Um Jovem Poeta no País da Ciência, Asa Editores, Porto, 2001.

From → Ciência

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