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O cogito cartesiano

by em Dezembro 8, 2010

“[…] E hei-de prosseguir o meu caminho até conhecer algo de certo ou, pelo menos, até que conheça como certo que não há nada certo. (…)

Por conseguinte, suponho que é falso tudo o que vejo. Creio que nunca existiu nada daquilo que a memória enganadora representa. Não tenho, absolutamente, sentidos; o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são quimeras. Então, o que será verdadeiro? Provavelmente uma só coisa: que nada é certo.

Mas o que me assegura que não há nada diverso de tudo o que acabei de enumerar e de que não haja a mínima ocasião de duvidar? Não há um certo Deus, ou como quer que o designe, que põe em mim aqueles mesmo pensamentos? Porque devo admitir isto, se talvez eu próprio possa ser o autor deles? Não sou eu, então, pelo menos alguma coisa? Mas já neguei que tivesse quaisquer sentidos e qualquer corpo. Todavia, hesito: porque, o que se conclui daí? Estou ligado ao corpo e aos sentidos de modo que não possa existir sem eles? Mas persuadi-me que não havia absolutamente nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. Não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, eu existia com certeza se me persuadi de alguma coisa. Mas há um enganador, não sei qual, sumamente poderoso, sumamente astuto, que me engana sempre com a sua indústria1. No entanto, não há dúvida de que também existo, se me engana2; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que, depois de ter pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo espírito, é necessariamente verdadeira.”

Descartes, René (1641), Meditações Sobre a Filosofia Primeira, introdução, tradução e notas de Gustavo de Fraga, Coimbra, Almedina, 1985, pp. 118-119.

“Depois, examinando com atenção o que eu era, vi que podia fingir não ter qualquer corpo, e que não havia qualquer mundo ou lugar onde estivesse; mas que nem por isso podia fingir que eu não existia; e que, pelo contrário, exactamente porque pensava em duvidar da verdade das outras coisas, tinha de admitir como muito evidente e muito certo que eu existia; ao passo que bastava eu deixar de pensar, ainda que tudo o que tinha imaginado fosse verdadeiro, para não ter já qualquer razão para crer que existia; por isso, compreendi que eu era uma substância cuja inteira essência ou natureza não era senão pensar, e que, para ser, não tem necessidade de lugar algum nem depende de coisa material alguma. De maneira que esse eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, e até é mais fácil de conhecer que ele, e mesmo que ele não existisse, ela não deixaria de ser tudo o que é.”

Descartes, René, (1637), Discurso do Método, Lisboa, Sá da Costa, 1980, 4.ª parte, p. 25, adaptado pelo docente-estagiário Rui Vieira da Cunha

1 Nota do Professor: indústria significa aqui perícia, engenho, invenção, habilidade.

2 O enganador é o Génio Maligno, de que já falámos. (…) «Si fallor, sum» é a formula agostiniana em A Cidade de Deus: «se me engano, existo».

Fonte

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