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A dúvida metódica

by em Dezembro 8, 2010

Meditação Primeira.

Das coisas que se podem colocar em dúvida.

«Há já algum tempo que me apercebi de que, desde os meus primeiros anos de vida, eu havia recebido uma quantidade de opiniões falsas, tomando-as por verdadeiras, e de que o que depois fundei sobre princípios tão pouco seguros só podia ser duvidoso e incerto; de modo que tinha de empreender seriamente a tarefa de, uma vez na vida, me livrar de todas as opiniões em que havia até então acreditado e começar tudo de novo, desde os primeiros fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências.

(…) Aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em destruir, de um modo geral, todas as minhas antigas opiniões. Ora, para chegar a este objectivo não será necessário provar que elas são todas falsas (provavelmente nem sequer o conseguiria); uma vez que a razão logo me persuade de que devo impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis com o mesmo cuidado com o que faço relativamente às que nos parecem manifestamente falsas, bastará encontrar o menor motivo de dúvida numa, para as rejeitar a todas. E por isso, não há necessidade de examinar cada uma delas em particular, o que redundaria num trabalho infinito: uma vez que a ruína dos fundamentos arrasta necessariamente consigo todo o resto do edifício, começarei por atacar os princípios sobre os quais estavam apoiadas todas as minhas antigas opiniões.

(…) Tudo o que recebi até hoje como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o com os sentidos, ou através dos sentidos: ora, já senti algumas vezes que os sentidos eram enganadores, e é de mais elementar prudência nunca acreditarmos totalmente naqueles que nos enganaram uma vez.

Mas ainda que por vezes os sentidos nos enganem sobre coisas pouco sensíveis e muito apartadas, encontram-se talvez, muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, apesar de das conhecermos através deles: por exemplo, de que estou aqui, sentado junto à lareira, vestindo um robe, tendo este papel nas mãos, e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo são meus?

(…) Todavia, tenho de considerar aqui que sou um homem e, por conseguinte, que tenho o hábito de dormir e de me representar, nos meus sonhos, as mesmas coisas (ou algumas menos verosímeis) que estes insensatos quando estão acordados. Quantas vezes me aconteceu sonhar, de noite, que estava aqui, que me encontrava vestido, que estava junto à lareira, embora estivesse completamente nu, no meu leito? (…) Mas pensando nisso cuidadosamente, lembro-me de ter sido frequentemente enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões… E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há indícios concludentes, nem marcas suficientemente seguras através das quais se possa distinguir a vigília do sono, que fico muito surpreendido; e a minha surpresa é tal, que é quase capaz de me convencer de que estou a dormir.»

René Descartes, Meditações Metafísicas, Meditação Primeira, Rés-Editora, pp. 9-13

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